sexta-feira, 18 de março de 2011

Em defesa do blog de Maria Bethania

Jorge Furtado, cineasta
A gritaria contra o blog de Maria Bethânia é uma mistura de ignorância, preconceito e mau-caratismo.
Ignorância, porque parte de idéia absolutamente falsa de que os produtores do blog – que pretende exercer a tarefa vital de divulgar a poesia – recebeu ou vai receber este dinheiro do governo.
Juro que tenho saudade do tempo em que se lia fato ou ficção, hoje o que mais há são equívocos e mentiras, que não são um nem outro.
O fato é que a única coisa que os produtores do blog receberam do governo foi aautorização para se humilhar, pedindo a empresários, de porta em porta, que considerem a possibilidade de, ao invés de entregar parte de seus impostos ao governo, patrocinar, com a vantajosa exposição de suas marcas, um blog de uma extraordinária artista brasileira, blog este que tem como objetivo divulgar a poesia, não há tarefa mais nobre.
Nada garante que os produtores do blog terão sucesso em sua jornada de mendicância entre a elite empresarial brasileira, frequentemente iletrada. O mais provável é que consigam apenas uma parte desta verba e tenham que redimensionar o projeto, o que seria uma pena.
Na minha opinião, o governo brasileiro deveria tirar do seu caixa o dinheiro (1,3 milhões de reais, uma ninharia perto da roubalheira do Detran gaúcho, dos pedágios paulistas, da máfia do governo Roriz/Arruda no DF, etc, etc...) e entregar para a Maria Bethânia, junto com um buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Vamos encarar a realidade?

Eu não posso dizer que ela me decepcionou. Eu não tenho o direito de achar que meu coração tem duzentos e cinqüenta e cinco cicatrizes porque o amor é uma faca afiada que corta. Vamos jogar aberto. A culpa é minha. Eu dei meu coração. Eu inventei um amor. Eu criei expectativas. Então, com sua licença. A culpa é minha. Minha culpa. Minha feia culpa que é minha e de mais ninguém. Minha culpa de sete pontas. Minha culpa que me faz olhar a vida e me sentir personagem principal de uma página triste. E não é só triste. É uma culpa boa. Porque também me faz exercitar um sentimento maior (e mais brilhante que o mundo): o perdão. Se eu pudesse escolher um verbo hoje, eu escolheria perdoar. Assim, conjugado na primeira pessoa, com objeto direto e ponto final: eu me perdôo. Não, eu não te perdôo porque não tenho porque te perdoar. Você não fez nada. Tenho que perdoar a mim. A mim, que me ferrei. Me iludi. Me fodi. Me refiz. Me encantei. A culpa é minha. Minhas e das minhas expectativas. Minha e do meu coração lerdo. Minha e da minha imaginação pra lá de maluca. Então, com sua licença, deixe eu e minha culpa em paz. Eu e meu delicioso perdão por mim mesmo. Eu só te peço uma coisa. Pare de culpar a vida. Pare de ter pena de você. Se assuma. Se aceite. Se culpe. Se estrepe. Se mate. Mas se perdoe. Pelo amor de Deus, se perdoe. (Somos todos culpados, se quisermos. Somos todos felizes, se deixarmos).

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma afronta à minha infância

Macacos me mordam, diria Robin. Santa promessa é o que faço agora. De mim para mim. Se Liga da Justiça, da banda LevaNóiz, for eleita a música do Carnaval de Salvador em 2011, peço licença e nunca mais tiro os pés do chão em solo soteropolitano. Será a última vez que passo o período de Momo por aqui. Pego uma bat-folga e vou de avião invisível para uma praia em outra galáxia.
Preconceito contra o pagode? Longe disso. Acho até que o ritmo até andou evoluindo. Não sou crítico musical, mas os caras melhoraram a percussão, ganharam superpoderes e estão cada vez melhores. É por isso mesmo que meus dois ouvidos precisariam ser biônicos para suportar o super-heróico hit do verão martelando toda hora na cabeça.
O pior não é nem a repetição. Liga da Justiça é, antes de tudo, uma afronta à minha infância.  Em primeiro lugar, Superman nunca fica fraco. No máximo, perde os poderes momentaneamente. E desde quando Pinguim mexe com kriptonita? Isso é coisa do cerebral Lex Luttor, que, aliás, faria música muito melhor se lhe fosse encomendada. Pelo menos o gênio do mal seria incapaz de ferir a gramática.

Ouçam o erro de concordância na versão original. Luttor e Coringa “roubou”, em vez de “roubaram” o laço da Mulher Maravilha. Licença poética qual nada. A música é ruim mesmo. Do início ao fim. A letra não se encaixa na melodia. Pela métrica mal feita, parece até coisa de Bizarro, o Superman às avessas com a cara quadrada. Mesmo sendo da Legião do Mal, o Charada bem que poderia dar uma forcinha para os compositores. Criatividade zero.
E tem mais. Mulher Maravilha jamais fugiria com Superman. Na liga da justiça, todo mundo sabe que ela sempre deu mole para o Batman. Enfim, a música do LevaNoiz é um retrocesso para o pagode, que tinha melhorado até nas letras. Firme e Forte, do Psi, e Selo de Qualidade, do Harmonia, são exemplos disso. Perto delas, a música dos super-heróis é de dar dó.

Se ganhar como música do Carnaval, vai haver um retorno às composições de sentido único, que em alguns casos está escondido num duplo sentido pessimamente elaborado. Não sei o que eles estão tramando. Na dúvida, melhor chamar os outros super- amigos.
E esse não é só um trabalho para Xande ou Márcio Victor. A sala de justiça da música baiana tem várias outras opções. Então, que história é essa de que agora só tem uma saída? Brown? Margareth? Daniela? Ivete? Scooby-Doo? Onde estão vocês, meus filhos?